terça-feira, abril 18, 2006


Caro Pedro,
Parece-me que o teu problema é que tu confundes Democracia, Liberdade / Ditadura e Censura com diferentes civilizações. A Marjane Satrapi viveu e vive exilada na Europa de facto, mas nunca renunciou à sua cultura, às suas raízes, à sua identidade cultural nem nunca defendeu, por outro lado, a ditadura do seu país. A vida dos exilados é assim. Astor Piazzola viveu exilado e continuou a fazer tangos argentinos. Manuel Alegre viveu exilado e continuou a escrever versos em português. José Afonso viveu algum tempo exilado e escreveu música tradicional portuguesa. Picasso viveu exilado. Eduard Said (http://www.edwardsaid.org/), palestiniano, professor universitário, advogado, sociólogo e humanista viveu exilado e nem por isso deixou de ser palestiniano. O nosso único prémio Nobel, José Saramago (o outro não conta porque recebeu o prémio a meias e porque as suas teorias já foi postergadas pela medicina moderna) vive exilado desde que o governo do actual presidente da república resolveu censurar o seu título «O evangelho segundo Jesus Cristo» para um prémio literário Europeu. Creio mesmo que uma grande percentagem dos génios da humanidade, sejam das artes ou da ciência, viveram ou vivem no exílio. Quanto ao desafio dos nomes árabes… aproveito a vantagem que me concedeste em nomear nomes históricos para seguir por aí. Então lá vai. Começo pelas «Mil e uma noites» obra prima da literatura mundial atribuída a um árabe desconhecido. Omar Khayamm que escreveu os famosos poemas Rubbayat (não fica atrás do Shakespeare em nada) e é universalmente bem mais conhecido que o Camões. Também ao longo da história a literatura Persa foi famosa assim como grandes poetas e filósofos saíram dos califados de Bagdad, Granada ou da Síria mas posso-te nomear no Al-Andaluz o mais famoso que viveu em Beja foi sem dúvida Al-Mutamid. Mas para a maioria das pessoas que vivem na infinita ignorância, só os nomes dos poetas e sábios do regime são conhecidos. Estes nomes são portanto desconhecidos, porque são nomes dos vencidos (e esses não ficam na história oficial), mas são nomes importantes e que fazem parte dos curricula universitários em História da Literatura de todo o mundo. Camões certamente seria um poeta desconhecido se Portugal não tivesse recuperado a independência em 1640. Cervantes seria um escritor menor a nível europeu se a Península Ibérica tivesse ficado espartilhada em cinco estados independentes (Catalunha, País Basco, Galiza, Portugal e Castela). A matemática não existira no modelo actual se não fossem os árabes. Ainda fazíamos contas em numeração romana (essa civilização superior)… Ora representa-me lá (0,5 : 23,354 ) em numeração romana (a tabela numérica da civilização ocidental) se faz favor? O contributo árabe para a ciência e para a literatura foi indispensável para aquilo que conhecemos hoje e para o desenvolvimento que atingimos. Não tenho dúvidas, no entanto, que nos nossos dias quem puxa mais a “carroça” da ciência e da tecnologia são os EU e o Japão (sobretudo os primeiros), mas a se há uma coisa que a história nos ensinou é que as coisas não imutáveis e quem manda hoje pode ser o escravo de amanhã (e.g. civilização romana depois das invasões bárbaras), e cuidado porque a China já é neste momento portadora de conhecimento científico que os EU, o Japão e a Europa desconhecem. Simplificar a história com números assim analisados de uma maneira fria e simplista é ridículo. É o mesmo que dizer que os espanhóis são bons e os portugueses maus porque no Grande Atlas da Pintura surgem 20 pintores espanhóis dignos de figurarem na galeria da história universal contra 1 portuguesa (que também viveu exilada em França) quando eles têm apenas três vezes mais habitantes do que nós. Ou que o Portistas são melhores que os Sportinguistas porque ganharam a grande taça do orgulho mais vezes!... Balelas, meu caro. Balelas.

Ah! Ia-me esquecendo. Ultimamente li literatura islâmica em nomes como Amin Malouf ou Salman Rushdie (este último é uma espécie Saramago árabe uma vez que também foi censurado só que em vez de ser condenado pelo Sousa Lara – esse nosso nosso jihadista católico - foi pelos imãs islâmicos), mas apreciei mais o primeiro, em todo o caso. Na música gosto, entre outros, o trabalho de Nusrat Fateh Ali Khan (http://nusrat.com/) que já fez inclusivamente boas bandas sonoras (que há poucas!) para Holliwood.

Digo e repito. As civilizações são um mito. O que existe é a ciência e o conhecimento e os países que agora estão na vanguarda económica não têm problemas nenhuns em expulsar emigrantes portugueses cristãos (mas iletrados) e em contratar hindus ou muçulmanos geniais em informática. De qualquer modo se for obrigado a escolher uma civilização escolho uma que seja ateia.

Inch Allah
Adalberto