segunda-feira, abril 03, 2006


A Esquerda e a sua leitura do real

O post aqui de baixo, aparentemente sobre Belmiro de Azevedo e a Sonae, é, na verdade, um post sobre a esquerda e a sua forma de ver o real. Não nos dizendo nada sobre Belmiro de Azevedo e sobre a Sonae – nada que importe, pelo menos – diz-nos bastante sobre uma certa esquerda e a sua estratégia argumentativa. A estratégia argumentativa utilizada assenta em dois pilares:

1. Menosprezar – mentindo, omitindo a verdade ou simplesmente centrando-se num defeito que se amplifica a uma dimensão que nos seja impossível ver para lá dele – aquilo a que não interessa reconhecer mérito.
2. Valorizando aquilo que, alegadamente, não tendo o defeito em torno do qual construímos a argumentação, se situa numa zona que, por insondáveis razões, pode ser elogiado.

O problema desta estratégia são os factos e a intencional desfocagem a que se força o olhar. Vejamos:

1. (Factos) Uma visita breve ao site da Sonae permitiria ao meu amigo Anarquista verificar que a Sonae está presente com a Sonae Indústria em doze países de três continentes, confirmando-se assim como um dos líderes mundiais no sector dos produtos derivados da madeira, alcançando, em 2003, um volume de negócios 1441 milhões de euros. Ou ainda que a Sonae Sierra é proprietária ou co-proprietária de 34 centros comerciais em Portugal, Espanha, Itália e Brasil, especializando-se num “produto” que, pela gestão a que obriga, só mesmo a má vontade não permite ver “inovação”.
2. (Intencional desfocagem a que se força o olhar) A Inditex, erigida no post do Bibliotecário Anarquista, como uma excelente prática, e que eu também considero um bom exemplo, serve aqui para atacar a Sonae. Mas, noutra discussão, serviria, lembrasse-se o meu amigo de olhar para as etiquetas dos produtos comercializados pela Inditex, para atacar a globalização e a exploração da mão-de-obra dos pobres desgraçados da bacia do Pacífico. Enfim, duas contas, dois pesos e duas medidas.