Ilustração: Tardi em «Le cri du peuple».Vou tentar ser breve e responder a todas as questões.
1) Questão do trabalho, criação de riqueza e SINDICATOS. Creio que é uma enorme asneira qualificar os sindicatos e os sindicalistas como uma cambada de mafiosos sem escrúpulos que vivem à custa dos trabalhadores. A mim também não me passa pela cabeça classificar todos os empresários da mesma forma. Certamente que os há humanistas, generosos e de boa vontade. Também não ponho em causa que é o trabalho, sobretudo o trabalho qualificado, criativo e inovador que produz mais riqueza. No fundo, digo com toda a frontalidade, o capital mais o trabalho produzem riqueza (e hoje em dia com a Internet já nem é necessário o capital). Agora aquilo que a sociedade de per se demonstrou que é totalmente incapaz de fazer é a distribuição dessa riqueza de uma forma justa. Ninguém põe em dúvida que a Revolução Industrial nos séculos XVIII e XIX proporcionou uma explosão da riqueza na Europa e nos EUA. Agora aquilo que o Liberalismo 1.0 (esta fui eu que inventei) foi totalmente incapaz de fazer foi a distribuição justa desse enorme bolo. O capital ficou com quase tudo e a força do trabalho sem nada. Daí o descontentamento dos trabalhadores cuja força física gerou esse espantoso aumento de riqueza, mas que continuavam a viver na miséria. Foi aí que surgiram os sindicatos. Uma força representativa destas pessoas que tanta riqueza geravam, mas nada tinham. Não tinham direitos, não tinham horários, não tinham férias, não tinham descanso, e não tinham dinheiro (a não ser o mínimo para se manterem vivos). Era uma escravatura camuflada. Hoje, graças aos sindicatos, estamos todos os dias a partir das 6h da tarde em casa com os nossos filhos, temos dias de repouso semanal, gozamos férias e temos alguns direitos. Mas também temos deveres nomeadamente de trabalhar, de produzir para o bem da empresa (sector privado) ou da comunidade (sector público).
2) Questão dos EUA e OCIDENTE. Ao contrário do grupo parlamentar do PP, sou um absoluto defensor da liberdade de expressão. E também sou defensor do direito ao bom nome e honra das pessoas. Ou seja, a liberdade de expressão termina quando começa a ofensa a alguém. Agora não defendo apenas a liberdade de expressão quando o que está em causa é a caricatura, a graça, a piada em relação aos muçulmanos, aos judeus ou aos pretos. Defendo principalmente a liberdade de expressão quando ela goza e brinca com os nossos valores mais sagrados e não com os valores mais sagrados dos outros. Convém lembrar que os cartoons nazis dos judeus publicados na Alemanha nos anos 30 ajudaram a aumentar o ódio dos alemães para com os judeus. Agora o que me faz confusão é que o grupo parlamentar do PP ponha a cabeça no cepo pela liberdade de expressão em 2006 em nome dos cartoons de Maomé e que em 2005 procure por todos os meios impedir que chegue às livrarias um livro intitulado «As mulheres não gostam de foder» em 2005 por ofensa ao pudor e a moral da maioria dos portugueses. Ou que tenham dado aval ao protesto de um grupo de católicos em 1992 que se manifestou contra a publicação no Expresso do famoso cartoon do Papa com o preservativo no nariz. Em que é que ficamos? A liberdade de expressão só serve quando é para gozar com o preto e com o mouro?... Se for para gozar com a Santa Madre Igreja já não serve?...
3) Quanto à questão do Salazar (ou Prof. Oliveira Salazar) e das cóboiadas do Bloco, que posso eu dizer? Usei a expressão Professor talvez com algum toque de ironia, mas era sobretudo para enfatizar o seu lado burocrata e não o de campónio, pois não me considero um snob, sou na verdade e com muito orgulho um servo da gleba, filho de servos da gleba e neto de servos da gleba. Sobre as coboiadas bloquistas: pois não fumo, não bebo, não como carnes… mas porque é que vocês (direitistas) gostam tanto de saber o que é que nós fazemos em casa. Bolas que é demais?... Gostam muito da liberdade, mas a espreitar pelo buraco da fechadura, não é?

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